quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

UMA TARDE EM MANHATTAN COM MARK KNOPFLER


Estou postando esta entrevista da revista Bizz, do dia 05/12/1985, pois acho importante divulgar esta matéria para todos os fãs!Espero que gostem! ^^


Taken from Bizz, No 5, December 1985.
Written by unknown

Se você viu o Live Aid na teve, certamente não esqueceu daquele rapaz loiro, de banda vermelha na cabeca, que estracalhou na voz e na guitarra na zilionesima apresentação de seu grande hit de 79, "Sultans of Swing". No momento em que, no palco, Mark Knopfler e seu Dire Straits davam uma mão ao pessoal da Etiópia, no mundo inteiro saiam das lojas milhares de exemplares do ultimo LP da banda, Brothers in Arms, uma obra-prima que hoje encabeça paradas de sucesso onde quer que a gente vá.

Vivendo entre uma casa em Londres e um apartamento no Greenwicn village, em Nova York, Knopfler consegue conciliar sua exaustiva vida com a banda e atividades paralelas como compositor de trilhas sonoras e competente produtor de feras como Tina Turner, Bob Dylan e Aztec Camera. Atingido pelo sucesso já maduro, aos 28 anos, conseguiu sobreviver ao pique massacrante de um pop star e admite: "Se tivesse 18 anos, poderia estar morto". Hoje e um cara tranqüilo.

Foi este cara tranqüilo que recebeu para uma entrevista Marco Antonio de Menezes, nosso homem em Nova York. O papo aconteceu no restaurante Conservatory, do hotel Mayflower, um recanto tradicional e sossegado pertinho do Central Park. Mark estava de jaqueta de couro preta sobre malha de algodão branca, jeans e botas de couro marrom. Como cabe a um roqueiro.

Era um dia chuvoso e cinzento, e o primeiro no qual os aquecimentos dos prédios da cidade estavam ligados. Um dia como Mar gosta. Apesar do cansaço de uma tour mundial, de milhares de entrevistas e depois de ter adiado um primeiro papo por ter passado a noite toda no aniversário de Sting, Mark teve disposição para falar durante uma hora. Sobre sua carreira suas atividades pré-roqueiras -- como professor de inglês, repórter, critico de rock e ate trabalhador braçal em uma fazenda. E, mostrando grande senso critico, sobre o perigo da manipulação de massas por certas bandas de rock e a confusão americana criada pelo discurso da Era Reagan.

BIZZ--Eu senti no seu show ontem, no Radio City Music Hall, que você tem com o púbico uma relação diferente. Não tem aquela coisa de criar apoteoses, climas extasiantes. Há uma espécie de distanciamento.

Mark--Eu não quero entrar naqueles esquemoes de manipulação do publico. As pessoas devem reagir ao que estiver acontecendo. Não devem receber ordens para reagir.


BIZZ--O seu publico mantém um certo senso critico, em vez de se envolver naquela coisa de massa.

Mark -- Algumas bandas gostam de atuar como se estivessem em comícios fascistas. Nos não trabalhamos assim.

BIZZ--Pela primeira vez o Dire Straits esta liderando nos Estados Unidos simultaneamente as Paradas de LPs e compactos. Levando em conta a grande diferença de popularidade do grupo entre os EUA e o resto do mundo, isto não soa como uma doce vingança?

Mark -- Ter sucesso na América muda as coisas. Uma gravadora aqui e diferente de uma gravadora em qualquer outro lugar do mundo. Eles obviamente estão mais interessados em vender milhões de discos. Estou muito feliz porque agora, para nos, a América e o que tem sido o resto do mundo há anos. Estamos acostumados com o sucesso, ele esteve com a gente desde o começo.

BIZZ--Será que esta popularidade aqui tem a ver com este respeito ao publico, com esta falta de manipulação?

Mark--Não acredito. Tivemos um compacto de muito sucesso, que ajudou a vender o LP Brothers in Arms. Tivemos vídeos de muito sucesso e uma tour mundial muito bem-sucedida, o que também ajudou a vender o LP. Nos não tocávamos aqui há quatro anos. Isto também vendeu o disco. E um bom disco, com mais de uma boa musica, e as pessoas conhecem mais de uma. Na verdade e uma combinação de circunstâncias. Também chamou muito a atenção nossa aparicão no Live Aid. E houve interesse sobre outras atividades nossas, como minha participação no disco de Tina Turner, com a autoria e a produção de ''Private Dancer" .

BIZZ--Por falar em Tina Turner, você esteve envolvido com outros projetos paralelos, como a participação na produção de discos de Bob Dylan e Aztec Camera, na feitura de trilhas sonoras dos filmes Comfort and Joy, Local Hero e Cal, além de participações em gravações com Bryan Ferry e Van Morrison. Você disse recentemente que pretendia parar com estas atividades para se dedicar inteiramente a banda. Você quer falar sobre isto?

Mark--Eu não disse que pretendia parar de fazer sessões (participações em shows e gravações de outras bandas). Amo estas participações. Eu acho que não gostaria mais de perder muito tempo produzindo discos de outros, porque acho que há gente que sabe fazer isto melhor que eu. Não acho que eu seja um produtor muito bom. Mas quero poder continuar encontrando tantos músicos quanto possível. E ainda gosto de fazer trilhas sonoras. Eu acho que a gente aprende fazendo o que sabe fazer melhor, e acho que o que faço de melhor São os concertos. Produção e um trabalho duro, exige muito. Cada disco que você faz e diferente. Você pode ter que organizar músicos, escrever musicas ou procurar por elas. Alguns artistas São mais produtores que outros, e por isto há gradações nesta historia. Alguns artistas tem um conhecimento razoável da tecnologia avançada existente em estúdios. Há tantas variáveis! E, ainda, músicos tem temperamentos diferentes, trabalham de modos completamente diferentes. Um produtor tem de ser muito flexível. Tem de organizar uma porção de coisas administrativas, organizar o tempo. Isto não e comigo, e eu não vou entrar nesta.

BIZZ.--Como a banda foi afetada com a saída de David Knopfler (irmão de Mark) e do baterista Pick Withers?

Mark--Acho que a banda esta melhor. Mais pessoas entraram. Há oito caras tocando comigo agora. Tem muita percussão no fundo. Tem Chris White, um grande saxofonista. E um musico de estúdio em Londres há anos. Nos nos conhecemos durante a gravacao da trilha de Comfort and Joy. Vou fazer mudanças o tempo todo. Acho que no final da excursão vou começar um trabalho com outros músicos. A banda vai descansar. Como um enorme animal pré-hist6rico que vai dormir. Há sessenta pessoas, cinco caminhões, cinco ônibus, cozinha, luz, som, com gastos de vinte e dois mil dólares por dia. Alguns músicos entram em hibernação, um tempo para recuperar sua sanidade. O equipamento vai para outros shows e outros depósitos. Eu vou dar um tempo e compor. Talvez faca outros projetos. E quase certamente vou tocar com outros músicos.

BIZZ--Como e que você se da com esta historia de ter um apartamento seu aqui e uma casa em Londres?

Mark--E bom. E difícil mas e' essencial ter bases em ambos os lugares. No ano passado passei nove meses no estúdio em Londres. Mixando o disco ao vivo, fazendo as trilhas, produzindo o Aztec Camera. Fique por la um tampão. E e bom estar aqui agora, porque acabo fazendo coisas diferentes. Para algumas pessoas certas mudanças constantes podem ser perigosas, mas eu não sou o tipo do cara que se perde. Eu levo uma vida com um pique realmente rápido. Há uns dias tive uma folga na excursão. Mas acordei quinze para as sete da manha para fazer um programa de TV. Depois passei o dia fazendo um vídeo. Dai fui tocar com David Letterman. Dai fui para o show do Sting no Radio City Music Hall. E, então, do show para festa de aniversário do Sting. Foi um dia de umas vinte horas direto. E assim um dia em Nova York quando não tenho show. E um dia ocupado, mas neste tempo não assino grandes contratos nem faço coisas assim. Eu tinha vinte e oito ano quando a banda começou a fazer sucesso. Ate ai eu tinha feito tanta coisas, minha personalidade estava formada. Se eu tivesse dezoito anos provavelmente estaria morto.

BIZZ --Antes de formar a banda você foi professor universitário, repórter trabalhou em uma fazenda. Da para falar sobre este tempo?


Mark--Eu sempre quis fazer musica. Mas, como você sabe, e muito difícil. Eu ensinei principalmente inglês. Para crianças que não se ambientavam ao sistema escolar por uma razão ou outra. Para adultos, secretarias, banqueiros, engenheiros, operários, babas espanholas, estudantes em tempo parcial e integral... Tive ate tempo de ensinar guitarra para algumas crianças. Depois entrei num jornal como foca, (um repórter iniciante). Me dei muito bem. Fiquei dois anos como repórter de um grande jornal inglês (Yorkshire Evening Post).

BIZZ--Que tipo de matérias você escrevia?

Mark--Eu era muito rápido em taquigrafia, para fazer anotações. Por isto cobri muitas coisas em tribunais, acidentes, mas fiz de tudo. (Foi, inclusive, critico de rock, o que não mencionou na entrevista.)

BIZZ--E o trabalho na fazenda?

Mark--Era um trabalho manual. Eu fui casado com a filha de um fazendeiro, e acabei na fazenda. Quando terminei a universidade procurei trabalho como musico de rock, mas tive de trabalhar na fazenda por um tempo para sobreviver. Você sabe como e. Tem hora que você não consegue achar um emprego e acaba pegando qualquer um que aparecer.

BIZZ -- Em "Money for Nothing", você fala da diferença entre o trabalho manual e o intelectual. Aquele papo sobre os carregadores numa loja de aparelhos eletrônicos que viam a MTV e falavam sobre como aqueles "bichas do rock ganhavam dinheiro fácil" (ver matéria sobre o clip na pg. 68). Você não acha que no fundo este cara entende que tocar guitarra e também um trabalho e como tal deve ser pago? Você não acha estúpido um cara que faz uma comparação destas?

Mark--Este cara representa uma certa mentalidade dura da América. Ele tem uma espécie de admiração não reconhecida pelos pop stars porque eles ganham muito dinheiro sem trabalhar duro. O que ele diz e mais ou menos isto: "Olha que cara esperto''. Este raciocino e errado. Mas ele pode estar certo em uma coisa: la naquele vídeo existem muito lixo. E engraçado. Ouvir aquele cara falar foi muito engraçado.

BIZZ--Muita gente achou que a musica era uma gozação com a MTV. Você esperava esta reação?

Mark --Eu não sabia como eles iriam recebe-la. Se iriam rir ou se ficariam irritados. No fim riram, ficaram lisonjeados com a coisa. Porque de certa forma e um reconhecimento de que a MTV e um fato na sociedade. A musica explora o problema do macho man, este tipo que a gente encontra em todo lugar no mundo. O machismo e um enorme problema mundial. Eu não queria chegar muito perto do cara. Fiquei escondido num corredor da loja. Eu ate penso um dia em voltar na loja pra ver se o encontro de novo.

BIZZ--Como foi que o Sting entrou nesta musica?

Mark--O Sting estava de ferias em Montserrat, onde gravávamos Brothers in Arms. Eu queria aquela frase no fundo: "I want my, I want my MTV" (Eu quero minha MTV). E e claro que tinha percebido que a frase e musicalmente muito semelhante a uma frase em "Don't Stand So Close to Me", do Police. Dai a empresa que tem os direitos do Sting me disse que queria uma participação. São cinco notas (cantarola duas vezes a frase). Sting não participou da gravação. Ele só colocou a voz depois.

BIZZ--Vocês vão fazer um concerto ao vivo no Hyde Park, em Londres, no mês que vem. E a primeira vez que e feito um show ao vivo la desde que os Rolling Stones tocaram em 1969. Como e esta historia?

Mark--Não vai ser no mês que vem. Não esta marcado. E eu não tenho certeza de que a gente vá faze-lo.

BIZZ--Como surgiu a idéia?

Mark--Pediram para a gente fazer. Mas não consigo lembar quem pediu. Acho que nosso empresário pensou que seria interessante terminarmos a tour com um concerto assim em Londres.

BIZZ--O que você acha de todos estes concertos beneficentes, que vem se multiplicando?

Mark--O Live Aid foi sem duvida um evento especial. E nos gostamos de tocar la. Você fala na proliferação destes eventos, mas nenhum foi tão importante quanto o Live Aid. Há uma diferença, por exemplo, entre o Live Aid e o Farm Aid (idéia do Bob Dylan e organização de Willie Nelson, para ajudar os fazendeiros americanos).

BIZZ--Do Farm Aid a gente pode ate discordar.

Mark--Pois e. E depois o Live Aid estava lidando com um problema imediato. E como dizer que a prevenção e melhor que a medicina. E claro que seria melhor se a gente pudesse ensinar as pessoas por que a pobreza existe, educar as pessoas. Mas nos temos um problema imediato, São aquelas pessoas morrendo.

BIZZ -- Como aconteceu de a Tina Turner gravar "Private Dancer?

Mark--A faixa tinha sido feita para nosso LP Love Over Gold (82). Mas eu não quis coloca-la no disco. Eu gravei o backing track e fiquei imaginando que queria uma mulher para canta-la. Porque e para uma mulher. Meu empresário conhecia o empresário de Tina. E a coisa rolou por ai.

BIZZ--"The Man's Too Strong" e uma musica política?

Mark--Acho que é. E sobre arte e política. Arte e governo. É um esdudo sobre a culpa, sobre alguém que se comportou de maneira errada. O que me parece e que a verdade sempre vem a tona, não importa o quanto você tente reprimi-la. Alguns governos chegam a queimar livros. Pode funcionar no curto prazo, mas no longo prazo e uma estratégia fada da ao fracasso.

BIZZ -- Reagan fez um governo conservador e foi reeleito com maioria esmagadora. Os jovens votaram nele. Ao mesmo tempo, a gente vê aqui uma explosão do rock sem precedentes. Será que os roqueiros do passado votariam em Reagan?

Mark--Bom, pra começar nem todos eles votaram em Reagan. As linhas de identificação e que se tornaram confusas. As mesmas coisas tem significados diferentes quando vistas de perspectivas diferentes. Por exemplo, fala-se muito agora sobre patriotismo. Isto tem um lado saudáveis e um lado feio. Algumas palavras como esta vem sendo usadas de forma cínica pelo governo. A boa cidadania e uma coisa desejável. Não há nada errado em amar seu pais. Mas vejo uma porção de movimentos doentios deste governo com relação as massas. Reagan tentou usar Bruce Springsteen. Mas Born in the USA e exatamente o contrario de Reagan. A musica diz que os pais esta errado, mas pode ser facilmente usada como peca de comício. E sobre esta confusão que estou falando. Reagan invocou duas vezes o Espírito de Rambo. Eu nem sei se ele viu este filme. Mas este e um tema muito grande. A gente poderia ficar aqui conversando sobre isto para sempre.

A formação do Dire Straits nunca foi conhecida por sua estabilidade. O grupo já entrou em seu segundo baterista e, poucos meses atrás, ganhou o terceiro guitarra-ritmo de sua carreira. Jack Sonni, que foi contratado numa situação que pareceu conto de fadas. Jack era funcionário da Rudy's Music Shop, uma loja de instrumentos musicais em Nova York. Mark Knopfler costumava frequentar a loja e tornou-se cliente e, mais tarde, amigo de Jack. Quando Hal Hindes (guitarrista do Straits que substitura David Knopfler, irmão de Mark) foi demitido da banda, Mark não pensou duas vezes: chamou o velho amigo Jack. A reação de Jack? Bom, de uma olhada no pedaço do reboco que falta no teto da loja--foi daquela
altura o pulo de Jack. =D

3 comentários:

guilhermecarnaval disse...

Não é a toa q esse cara fez tanto sucesso por tanto tempo.Percebe-se pela entrevista q mesmo no auge da carreira só com 36 anos de idade,ele é uma pessoa sensata e ciente de suas responsabilidades,não deixando o sucesso subir-lhe a cabeça
Por isso e considerado "the quiet man of rock and roll"

Angel Of Mercy disse...

Perfeitamente! ^^

Carla Costeira disse...

Concordo!
É uma, entre muitas outras coisas, que me faz admirá-lo tanto!
Como é admirável ser-se simples, pacato e ter-se bons costumes quando o sucesso nos bate à porta! Mark é um exemplo para muitos, um exemplo a seguir!!!
E é tão trabalhador,
não pára!!! E ainda por cima o que faz, faz muitíssimo bem!!!
FELIZ ANO NOVO PARA TODOS! (PRINCIPALMENTE PARA OS FÃS DO MARK KNOPFLER!!!) eheheheh

Dire Straits

Dire Straits
A voz e a guitarra do Dire Straits ao vivo em Cologne, 1979