domingo, 6 de dezembro de 2015

Singularidade musical- Dire Straits


Antes, gostaria de introduzir o leitor a premissa da palavra panorama.

Conta-nos o dicionário que:
Panorama é uma ampla vista geral de uma paisagem, território, cidade ou de parte destes elementos, normalmente vistos de um ponto elevado ou relativamente distante.

Eu destaquei essas palavras em negrito, justamente para explicar que eu tive que me distanciar no tempo para perceber (vista, perspectiva) em detalhes as características sonoras do Dire Straits. Para minha felicidade,  isso é um processo que ainda está em construção, muitos outros detalhes serão naturalmente percebidos com o decorrer do tempo, porém, já é tempo de expor um pouco mais de um conjunto de minhas perspectivas, desta vez, acerca de uma característica  marcante do Dire Straits e que curiosamente passa despercebido por alguns fãs, não obstante, o que trago não será nenhuma grande novidade, mas, algo que como fã da banda, me deixa muito orgulhoso de saber.

O Dire Straits é uma banda de singularidades, a começar pelo seu formato, onde tudo parece girar em torno do compositor, guitarrista solo, vocalista, o líder da banda, Mark Knopfler, poucas bandas no cenário do classic rock possuem uma concentração tão abundante em um único individuo. Neste sentido, podemos perceber que, apesar da banda contar com elementos substanciais em sua estrutura  musical como Alan Clark, Pick Whiters, David Knopfler e Terry Williams, ou seja, músicos que marcaram profundamente a sonoridade da banda, deixando de fato suas "impressões digitais", Mark Knopfler consegue manter tudo em torno de sua grandiosa capacidade criativa, como um astro rei (sol) exercendo sua força gravitacional no sistema planetário que o cerca. 




Vamos além de outras peculiaridades da banda, muito já se falou sobre o estilo de Knopfler de tocar guitarra, sem dúvidas, a grande assinatura da banda. Dentre outros aspectos, hoje, eu gostaria de destacar um elemento fundamental e muito característico do Dire Straits, sua incrível capacidade de se recriar, a faculdade de transformar uma canção em uma outra canção, e não estou falando de cover, me refiro as suas próprias canções.



 Os bootlegs possuem a dádiva de revelar a banda por completo, pois vai além do que foi construído em estúdio, para o Dire Straits, ao vivo tudo muda, suas músicas sempre sofreram mutações, seja no formato, mudanças de guitarras que vai trazer um novo timbre, novo sabor, já que este elemento é um dos pontos centrais da musicalidade da banda. Eu já tive a oportunidade de apresentar algumas evoluções musicais, onde eu mostrei o desenvolvimento de uma canção partindo de seu estado puro, até seu apogeu, mostrando um panorama onde podemos apreciar toda a evolução da canção dentro da trajetória da banda. Entretanto, quantas bandas possuem essa façanha? Todo fã do Dire Straits tem o mínimo de bom gosto possível e está conectado a outras grandes bandas que são unanimes no que se refere a qualidade, eu mesmo sou um grande fã de bandas como Pink Floyd, Beatles, Rush, Yes, Eagles, Bread, Creedence, Led Zeppelin, Queen, Camel, The Police... Sem desmerecer absolutamente em nada a grandiosidade destas bandas, mas, nenhuma delas  foram tão longe nesse processo de recriar sua própria canção como o Dire Straits. Basta citar o seguinte, quantos formatos existem para lindas canções como: Time ou Comfortably Numb, do Pink Floyd? Assim como Echoes, Money, Shine On You Crazy Diamond, Wish You Were Here, The Wall... E quanto a grandes clássicos do Queen como: Bohemian rhapsody, We Will Rock You, We Are The Champions, Crazy Little Thing Called Love,  Radio Ga Ga? Da mesma forma, o Led Zeppelin: Stairway To Heaven, Since I've Been Loving you, The Song Remains the Same, Kashmir, Dazed and Confused... do Rush:  Tom Sawyer, Red Barchetta, Xanadu, The Spirit Of Radio, Subdivisions, Time Stand Still, Red Sector A...


Evidentemente que eu sei que alguma dessas canções sofreram alguma metamorfose em algum ponto da carreira dessas bandas, contudo, nada enfático, nada com a ousadia com que o Dire Straits fez no decorrer de todas as suas turnês. Vejamos por exemplo a canção Sultans of Swing, de seu estado puro, 1977 a 1979, a todos os formatos e experimentos categóricos que essa canção foi trabalhada até chegar os dias atuais, muito foi feito por ela, estendeu-se a canção, de 5:48, foi para casa dos 8:00, 9:00, chegando a 14:30 em 1996. Há versões com a presença de órgão hammonds e sinterizadores (80/83), versões com presença de saxofone (85/92), versões que misturam vários formatos, formato clássico, dois guitarristas, um baixista e um baterista, contudo, extensa e com elementos novos no baixo e guitarra e cruzam com antigos arranjos que fizeram história na banda (2001-2015). O que dizer de uma canção como Portobello Belle? De seu estado primário no álbum Communiqué ao Reggae Irlandês, como Mark sempre citava enquanto estava introduzindo essa canção durante a turnê do Love over Gold, 1982-1983. A transformação de Wild West end One World durante a BIA tour 85/86; Angel of Mercy durante a turnê de 1980-1981, definitivamente reformulada; 



Tunnel of Love
de 80 a 92, (chegando a ter 24:30 durante a turnê do Brothers in Arms em 1985, ou seja, o triplo da versão de estúdio);  as texturas sonoras de Romeo and Juliet de 1980, até hoje é tocada; a belíssima versão calypso-acústica de So Far Away em 1986 e posteriormente em 1993 com os NHB; os formatos de Once Upon a Time in the West, Expresso Love, Solid Rock, News, Lions, Donw to the Waterline, 
 Where Do You Think You're Going; o que foi feito em Water of Love na primeira turnê dos Notting hillbillies em 1990, e durante a primeira turnê solo de MK em 1996...

Neste sentido é como se o Dire Straits fosse um discípulo do grande  Bob Dylan, mestre em se reinventar, o que de fato é muito verdade, uma vez que Knopfler foi e é profundamente influenciado por Mr. Dylan.




Acredito que podemos considerar que o Dire Straits possui uma capacidade extraordinária de se recriar, Knopfler falava que o palco é o lar do Dire Straits, podemos notar que de fato, o palco era o ambiente onde a banda sempre mostrou sua totalidade, mostrando sempre que é possível ousar e trabalhar a canção em outras perspectivas sem perder o espírito, e trazer novos sabores, sensações e emoções através de novas atmosferas, ou seja, dando o melhor para a canção e usando-a como veículo de sua arte, sua técnica guitarrística, por sinal, isso é um fator que o difere dos tempos atuais, hoje ele não usa mais as suas canções para mostrar seu técnica, hoje ele trabalha muito mais em torno de servir a canção em si, dando mais enfase e espaço para outros músicos atuarem em função da canção do que torná-la como veículo de sua técnica, como nos tempos do Dire Straits.





Ele hoje parece não se importar mais com isso, aprimorou seu lado compositor e cantor, e segue em um padrão indiscutível de qualidade, continua recriando suas próprias canções, existe alguns formatos de canções de sua carreira solo como What It Is, Sailing to Philadelphia, Coyote,  Postcards from Paraguay, mas, tudo muito modesto em comparação a sua forma de atuar com o Dire Straits, a mais ousada até então é o quer foi feito na canção Marbletown, que veio ficar realmente muito notável nesta última turnê de 2015.
  
Não deixe de comentar se concorda, se discorda, a transmissão de ideias só é válida com a participação!

Brunno Nunes









2 comentários:

Guttemberg Coutinho disse...

Excelente artigo, Peculiaridades marcantes da banda, talvez jamais observadas tão bem por um fã. Parabéns!

Guttemberg Coutinho disse...

Excelente artigo, Peculiaridades marcantes da banda, talvez jamais observadas tão bem por um fã. Parabéns!

Dire Straits

Dire Straits
A voz e a guitarra do Dire Straits ao vivo em Cologne, 1979